Amanda foi dar um beijo de despedida nela.
Mas se esqueceu de um hábito tipicamente sulista: os três beijinhos.
Quase ganhou um selinho de Fernanda.
Amanda não tinha a sexualidade totalmente definida: tinha beijado algumas meninas, gostava disso.
Mas a dúvida era se curtia garotos.
Ela não ficava com um há muito tempo, não sabia mais o que sentia por um homem.
Tinha sentimentos muito intensos.
Quando amava, amava demais.
Quando odiava, odiava demais.
Quando chorava, chorava demais.
Uma garota de extremos.
Achava-se bonitinha: morena, olhos castanhos, um tipo normal entre a população. Um pouquinho acima do peso,
mas tinha um olhar cativante e uma boca atraente.
Levava as pessoas pela conversa.
Tinha uma lábia incrivelmente boa, era comunicativa e explorava isso de maneira fascinante, o que compensava
o fato de não ter uma beleza exótica.
A mãe achava-a linda.
Ela pensava ser corujice.
Afinal, até a mãe do Ronaldinho Gaúcho achava-o bonito.
Ceguice total.
Ao perceber que Fernanda já havia virado a esquina, Amanda fala pra si mesma:
- Agora fodeu!
Reparou que uma senhora se aproximava.
Para não pagar um mico muito grande, fingiu um sotaque americano e perguntou:
- A senhôura poderuia dizer onde passa um ônibus parua o metrô?
- Claro, siga em frente por dois quarteirões e vire a esquerda. Logo você verá um ponto!
- Oburigada!
Não sabia o que era pior: não saber andar em São Paulo ou fingir ser estrangeira.
Chegou ao ponto de ônibus dando gargalhadas.
Entrou num microônibus para ir ao metrô.
Pensava: 'santo bilhete único que me faz pagar só uma passagem no ônibus'.
Passou pela catraca, e ao sair, tentou passar por ela novamente para sair pela porta da frente.
Detalhe: naquele modelo de ônibus, a saída era pela parte traseira.
Chutava a catraca que travou, xingava e socava.
Até que o motorista comunicou-a:
- A sinhóra pode chutá, esperneá, mas deixa eu avisá: a saída é ali no fundo, ó!
Após ficar vermelha e querer se enforcar, Amanda desceu ligeiramente frustrada do ônibus.
O que mais poderia acontecer com ela?
Conseguiu chegar sã e salva em casa.
Porém, um probleminha: 1 hora de atraso, celular desligado, mãe chorando depois de ter ligado para a polícia.
- AMANDAAA, ONDE VOCÊ SE METEU?
- Calma, mãe, o ônibus quebrou, tivemos que esperar o próximo. Mas tava lotado, então esperamos o que viria
em seguida.
- Filha, você quase me mata do coração! Atrasa, deixa o celular desligado...
- Desculpa, mãe, não queria te causar essa preocupação.
- Venha almoçar. Tadinha, deve estar roxa de fome.
Outra vez, Amanda demonstrou o incrível poder de mentir na cara dura.
Aproveitou que não tinha nada para fazer durante a tarde e resolveu caçar Fernanda no orkut.
Não sabia seu sobrenome, idade, telefone, nada.
Só sabia que era de seu colégio e veio de Santa Catarina.
A primeira providência a se tomar: entrar na comunidade do colégio.
Por sorte, ela achou Fernanda.
A foto do profile era simples, porém sedutora.
Cabelos brilhando à luz do Sol, óculos, o que lhe dava ar de nerd, e um vestido vermelho.
Fuçou no álbum, comunidades, até que se deparou com uma: 'No escuro [meninas]'
Logo, desconfiou da catarinense.
Continuou olhando as comunidades, até que achou outra suspeita: 'The L Word'
Abriu um largo sorriso.
Não sabia o porquê do sorriso, mas gostava da idéia de que Fernanda curtisse outras garotas.
Estava com vergonha, começou a ficar nervosa.
Portanto, deixou somente um recado:
'Oi, é a menina do colégio que te encontrou no ponto de ônibus! Posso add? Beijos!'
Ficou ansiosa, com esperanças de que ela respondesse naquele momento.
Atualizava a página do orkut a cada minuto.
Dez minutos e nada.
Vinte e nenhum scrap.
Meia hora se passava e não havia resposta.
Resolveu fazer algo mais produtivo.
Adiantou umas lições do colégio, tocou um pouquinho de guitarra.
Amanda era alucinada por música.
Tocava violão, guitarra, baixo e um pouco de bateria.
Resolveu voltar ao computador.
(Conquistas e fracassos de uma adolescente em crise - Por: Luh.)



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