6:00.
Toca o despertador.
Amanda luta contra o sono e usa sua força para manter os olhos abertos.
Mais um dia de colégio.
Gostava do ambiente, dos professores, mas algumas pessoas a desagradavam bastante.
Estava cansada de agüentar a imaturidade da maioria de sua sala de aula.
Sentia-se a única pessoa normal entre 40.
Mas aí se perguntava: não seria ela a anormal?
Arranjou forças, assistiu às aulas e no fim delas, logo saiu correndo.
Todo dia, Amanda pegava o mesmo ônibus no mesmo horário em direção à sua casa.
Mesmo ônibus, mesmas pessoas, mesmo motorista, mesmo cobrador: nesse dia algo mudou.
Quando estava no ponto de ônibus, uma menina com o uniforme de seu colégio veio lhe fazer uma pergunta:
- Oi, aqui passa o ônibus que vai pro Ipiranga? - num tom simpático, a menina veio educadamente.
Amanda estava olhando para baixo, analisando seus tênis e pensando na limpeza deles urgentemente.
Quando ergue o pescoço, depara-se com a menina mais linda que já tinha visto com o uniforme de seu colégio:
morena, olhos verdes, boca carnuda, olhar sensual e corpo escultural, além de muito estilo.
- Sim, passa sim, mas ele acabou de passar! - responde Amanda, num tom amabilíssimo, como se Angelina Jolie
estivesse pedindo seu telefone.
- Ah, valeu! Tu és de que série?
- Sou do 3º ano, e você?
- Também!
- Como nunca te vi pelo colégio?
- Ah, é uma longa história.
- Desculpa, sou muito intrometida, né?
- Imagina! Se tu estiver disposta a ouvir a história...
- Claro, estou sim! Afinal, perdi meu ônibus agora pouco.
Nunca Amanda havia se dado tão bem com alguém. A conversa estava rolando muito facilmente.
- Bom, eu vim de Santa Catarina há duas semanas...
- Nossa, no meio do ano?
- Pois é. Super complicado para me adaptar. Todo mundo já se conhece no colégio e eu fiquei sozinha.
- Garanto que não é questão de tempo. Eu sou sozinha e estudo aqui há dois anos.
- Sozinha por quê? Tu és tão espontânea, simpática...
- Todos me acham estranha no colégio. Mas, enfim, continue a história!
- Então, vou resumir um pouco: como sou de cidade pequena, começaram a rolar uns boatos sobre mim.
- Putz, que foda, meu!
- Né? E aí começaram a me humilhar na cidade, dizer coisas horríveis para minha mãe. Então decidimos nos mudar.
- Coitada, meeu! Credo, povo mais inútil.
Amanda pensou em mil hipóteses de boatos que rolaram na cidade, mas ficou na dúvida.
Quando a conversa estava ficando boa, chegou o ônibus da menina.
- Bom, já vou indo.
- Eu também! É meu ônibus.
Apelação total para a mentira: ela morava bem longe do Ipiranga.
Realmente, uma especialista em não perder o clima da situação.
- Que bom! Companhia para ir pra casa!
- Com certeza! Vou ter que te perseguir todos os dias! Por falar nisso, a mal-educada aqui nem perguntou: qual seu nome?
- Fernanda! E o teu?
- Amanda. Tá, ia fazer piadinha sem graça, mas logo de cara você já ia querer me socar.
- Eu também ia fazer uma piadinha, mas achei que tu ia me espancar!
- Nossa, coincidência! Qual ia ser a piada?
- Que nossos nomes rimam!
- Ah, tá zuandoooo!
- Falei que ia ser sem graça...
- Eu ia falar a mesma coisa!
- Sério? Não creio!
- Mesmo!
As duas conversaram sobre vários assuntos durante o caminho.
Amanda nem percebeu o quão longe estava de sua casa, mas quem ligava?
Uma das primeiras pessoas com bom papo em seu colégio estava diante dela.
Tinham gostos parecidíssimos, o que acabou fazendo com que ambas se identificassem uma com a outra.
Amanda, para disfarçar, resolveu que iria descer um ponto depois de Fernanda.
Nem imaginava onde seria isso, mas assim tinha escolhido fazer.
De repente, Fernanda fala surpresa:
- Putz, passei do meu ponto já! - e apertou o botão do ônibus.
- Nossa, justamente o ponto onde vou descer! - fingiu Amanda.
A arte de não perder o clima era tão forte quanto a arte de fingir, praticamente uma atriz.
As duas desceram do ônibus.
- Você vai para a direita? - perguntou Fernanda, cheia de expectativa.
- Não, vou para a esquerda.
- Que pena... então tá bom! Tchau!
(Conquistas e fracassos de uma adolescente em crise - Por: Luh.)