
Então tudo começou a girar e ela precisou apoiar-se na parede e a Dona da Pista não percebeu. A Dona da Pista preferia dançar a ajudar ou a namorar ou a ver líquidos invisíveis. Até porque ela era a Dona da Pista e as donas de pistas precisam cuidar de suas pistas de dança, para não perdê-las – há mais pessoas do que você pode imaginar querendo pistas de dança. E ela percebeu, apesar da Tequila e do mundo girando, apesar do líquido invisível que embaçava um pouco a sua visão. Ela percebeu que ela não se sentia bem. Achou que o líquido poderia fazer estragos, então fechou os olhos, andou até o lado dela, encostou na parede e disse: - Me dá um beijo que o enjôo passa. Ela não acreditou, apesar do vício, apesar do mundo girando, apesar da Dona da Pista não vir ajudá-la. Ela não acreditou, mesmo estando em um sonho em que as coisas são reais. Ela não entendeu que o enjôo era realmente culpa da menina. Não. Ela sorriu e esperou pelo beijo, mesmo não sendo um menino que a iria beijar, ela esperou que a menina da tequila a beijasse. O cheiro do lugar era forte demais, deixava qualquer um real. Era cheiro de cigarro e cheiro de incenso, era cheiro de lágrimas e cheiro de sorrisos, era um cheiro que não se dissolvia, um cheiro que não combinava com oxigênio, um cheiro que viciava e que deixava o ar laranja, um cheiro de cores fortes. Ela não gostava mais do cheiro quando finalmente foi beijada. Quando finalmente ela teve a certeza que o enjôo iria embora (junto com o cheiro), a música passou por elas. A tal música.
.
[continua]